Anúncio do fim dos serviços de trólebus

Trolebus

Adeus, trólebus

Victor Cervi – In Jornal «Verdade», Ribeirão Preto, 03 de junho de 1999.

«Cemitério» dos trólebus da Transerp

Na madrugada de hoje, os seis últimos trólebus da cidade fizeram a última viagem depois de 17 anos servindo a cidade e já estão encostados no "cemitério" da garagem da Transerp, onde ficarão ninguém sabe por quanto tempo. Provavelmente, serão vendidos como sucata, já que não há mercado para este tipo de ônibus no país. O motorista João de Souza Silva, o "Souza", fez a linha 207, que saiu da praça Carlos Gomes aos cinco minutos de hoje com destino ao presidente Dutra e depois foi recolhido à garagem. A linha 202 - Jardim Independência foi do motorista Aparecido Luís Correa, o "Correa" que também saiu do terminal no mesmo horário. A linha 203 foi do Celso Geraldo de Araújo, o "Celso" que fez a linha Iguatemi. Sebastião Mazzali, o "Mazzali" fez a linha 206, do Hospital das Clínicas. Divino Reis Marcóreo fez a linha 205, da Vila Virgínia. E Ari da Cunha Ribas, o "Ari", fez linha Forum. Todos os seis motoristas têm mais de 10 anos de empresa e logo que deixaram os trólebus na garagem, tiveram rescindidos seus contratos com a Transerp. A empresa montou um esquema de atendimento para que os papéis fossem assinados logo que eles deixassem de trabalhar. A maioria dos motoristas dispensados deveria trabalhar nas outras empresas concessionárias, cumprindo acordo feito com o sindicato. De cerca de 250 funcionários, a Transero ficará com apenas 55 – os outros foram dispensados. Alguns não aceitaram trabalhar em outra empresa e com o dinheiro de indenização vão tentar outra vida, ou esperar a aposentadoria.

Durante o dia, o clima na garagem da Transerp "foi de velório", dizia um funcionário antigo. Havia no ar um desconforto entre as pessoas, mecânicos, operadores de linha e até mesmo no pessoal do escritório.

Vicente dos Santos, que entrou na empresa em 1981 como ajudante, não escondia a tristeza que sentia. "Dá pena ver acabar uma coisa que a gente construiu". Vicente conta que ajudou a colocar postes na rua, carregar cabos, fazer praticamente de tudo dentro da empresa. Com 38 anos, casado, 3 filhos ainda não sabia se ia aceitar trabalhar em outra empresa, mesmo porque como técnico na manutenção de rede elétrica, não teria muito o que fazer, já que os ônibus elétricos não vão rodar mais. "A gente era 23 pessoas, trabalhamos dia e noite para colocar postes, deixar em condições de funcionar e agora tudo vai desaparecer". Vicente está triste, assim como Ademir Benedito, que está há onze anos na Transerp. "Sinto um grande peso no coração. É um pedaço da vida da gente que se acaba".

Nas rodinhas do final da tarde, hora de ir embora, o ambiente é ainda mais carregado, porque todos sabem que é o último dia na garagem, amanhã não tem mais. "É uma angústia muito grande que sentimos" diz um mecânico do lado de fora da empresa, debaixo das árvores que ficam na entrada, com milhares de pardais anunciando o anoitecer.

A Transerp – Empresa de Transportes Urbanos de Ribeirão Preto foi criada em 1982, pelo prefeito Duarte Nogueira. No dia 12 de julho daquele ano, começou a operar comercialmente com a linha Presidente Dutra. Em 1992, a empresa também começou a operar com ônibus diesel. Nestes 18 anos a empresa foi sofrendo um processo de sucateamento progressivo, sem investimentos e com um certo inchaço de pessoal. Desde a sua implantação, poucos prefeitos investiram na empresa, que aumentou as linhas por uma espécie de inércia e porque explorava as linhas mais rentáveis. Sem ônibus, a Transerp vai se tornar apenas numa gestora do transporte urbano da cidade, cuidando de fiscalizar e implantar uma política para o setor.

Os 22 trólebus vão ficar no pátio da empresa e deverão ser leiloados, juntamente com 16 ônibus diesel. 6 ônibus diesel serão utilizados pela administração. Por enquanto, as linhas da rede elétrica ficará onde estão, até que encontrem um destino melhor. Provavelmente também serão vendidas como sucata para algum ferro velho, que reaproveitarão o material.

 

Delcides Pagotto, o pioneiro.Delcides Pagotto

Delcides Pagotto, 61 anos, casado, dois filhos, também fez a sua última viagem ontem de manhã. Na sua casa no Ipiranga, sentado na sala com a mulher dona Ofélia, relembra e fica com os olhos um pouco marejados, talvez do sol que entra pela porta de vidro, ou então por causa da televisão ligada. "Dirigi o primeiro trólebus, na linha presidente Dutra. No dia da inauguração estava o Nogueira, o Pileggi e outras autoridades que não lembro o nome. Tava também a TV Ribeirão que fez a viagem junto. Foi um dia festivo e bonito". Ele diz que a população teve bilhetes grátis durante três meses para se acostumar com o novo sistema. E mostra, orgulhoso, um velho bilhete daquele tempo que guarda cuidadosamente na carteira junto com um dólar e outros documentos. "Aprendi a dirigir o trólebus em Araraquara, onde a gente ficou durante quatro dias. Já era motorista de ônibus e de carreta, não tive nenhuma dificuldade em aprender. Além do mais, o trólebus é fácil de dirigir, é só ter cuidado". Fazendo as contas, Pagotto diz que fazia 10 quilômetros por dia, e que, multiplicando dias por meses e anos deve ter feito cerca de 4 milhões de quilômetros nestes 18 anos de serviço duro e árduo, levantando cedo com chuva ou sol, atendendo os passageiros com gentileza, nunca faltando ao serviço.

"Eu fazia média de 10 horas por dia, tinha dia que trabalhava sete horas e outros dias em que chegava a trabalhar até treze horas". Segundo Pagotto, naquele tempo o salário era melhor que o da Cometa, a outra empresa que fazia o transporte coletivo na cidade e que depois de uma concorrência, foi embora. Naquele tempo o bilhete também era mais barato, diz Pagotto

Bilhete da fase de testes"A Cometa cobrava 35 centavos e a Transerp, 25. O povo preferia sempre a Transerp, não só por causa do preço, mas também porque os ônibus eram melhores e mais rápidos". Ele fazia o percurso do Presidente Dutra em 54 minutos, entrava às 4h30 da manhã para fazer a madrugada. "Eram 40 pontos de paradas, a gente fica conhecendo as pessoas, vira amigo, conhecido, cria amizade. Agora, acabou, não sei como vai ser". Quem está contente com a parada de Delcides é dona Ofélia "Agora ele não vai ter que levantar de madrugada todo dia". E brinca "Agora, ele é quem vai cuidar de casa, lavar louça, cozinhar e outras coisas".

Delcides ri e diz que gosta de cozinhar, seu prato principal é macarronada com bastante molho de tomate. Agora, Delcides pensa em pescar, descansar. É um dos poucos que não vai trabalhar para as outras concessionárias, " vou fazer uns bicos, mas trabalho fixo não" diz ele, de novo com os olhos marejados, talvez da luz que entra pela porta de vidro ou pela TV ligada e sem som que fica na estante da sala bem cuidada e de chão brilhante. Dona Ofélia ainda ri, porque vai ter o marido mais tempo em casa. "Será que ela vai me aturar?" pergunta Delcides, com um sorriso manso e tranqüilo.

 

Um pouco da história

1978 - Ministério dos Transportes cria grupo para desenvolver projeto piloto de trólebus em cidade média.

1979 - Ribeirão Preto é a cidade escolhida e assina convênio com a Empresa Brasileira de Transportes Urbanos.

1980 - Organização da Transerp, empresa de economia mista. Definição dos corredores que serão atendidos pelos trólebus.

198l - Início da construção da garagem e da instalação da rede aérea e substações. Licitação para a compra de 22 trólebus

1982/04/30 - Inauguração oficial da primeira linha

1982/07/24 - Inauguração do primeiro corrredor comercial dos trólebus

1983/08/07 - Segundo corredor – Jardim Independência

1984/04/15 - Terceiro corredor- Vila Virgínia

1988/11/30 - Terminal de Integração na praça Carlos Gomes

1988/12/01 - Quarto corredor – Hospital das Clínicas

1992/06/15 - Quinto corredor – Iguatemi

1999/07/02 - Última viagem dos trólebus em Ribeirão

 

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