JORNAL DE ARARAQUARA Araraquara, 02 de maio de 1.999
Troleibus transformam-se em relíquias Troleibus dizem adeus ao transporteO sonho de Romulo Lupo foi bem construído. Somente agora, depois de 40 anos, a empresa privada recebe a intervenção da Prefeitura Municipal. Em seu terceiro mandato, De Santi consegue fazer a diretoria da Companhia Troleibus Araraquara porque o Executivo recebeu, em doação, montante de ações que o coloca como acionista majoritário, dentre os conhecidos.
A idéia de transporte coletivo, com a energia sem poluição nenhuma, está morrendo. As unidades elétricas, em decorrência do elevado custo operacional, têm data marcada para encerrar o ciclo: fim deste ano, segundo declaração do presidente Marco Antonio Soares.
Foi em Araraquara que circulou o primeiro trólebus fabricado no Brasil, com motor Villares e chassis e carroceria Grassi. Operado pela Companhia Troleibus Araraquara (CTA), o meio de transporte que utiliza a energia elétrica, foi alvo de admiração das pessoas por integrar um sistema considerado bastante moderno para a época.
Decidido a montar uma empresa, Rômulo Lupo foi quem iniciou a formação de uma frota, na década de 50, quando o transporte coletivo era realizado por alguns particulares.
Hoje, após 40 anos, 80 ônibus a diesel e 12 elétricos transportam, em média, 45 mil pessoas por dia. São 14 linhas para atender à população.
O presidente da CTA Marco Antônio Soares, diz que os trajetos cobrem a cidade, permitindo aos usuários a locomoção rápida dos bairros ao centro como se fossem radiais. "As linhas fazem trajetos eficazes aos passageiros, com pontos de parada a cada 300 metros", garante.
A CTA tem adquirido 12 ônibus a diesel, anualmente, mas pretende acrescer 20 à frota, neste ano. "Assim os ônibus estarão em melhores condições e o usuário estará satisfeito", comenta Soares.
Mas o destino dos troleibus é diferente.
Fim de linha
Segundo Marco Soares, com o aumento da frota a diesel será possível tirar de circulação os elétricos, que "representam 35% do custo da empresa". "A manutenção dos carros elétricos torna-se difícil em decorrência da ausência de peças para a reposição e o alto custo por quilômetro", explica.
Araraquara, 09 de maio de 1.999
Troleibus também são modernos Emídio Gardé (*)
Não foi sem mágoa que li, na edição eletrônica do passado dia 2 do "JA", uma entrevista c/ o sr. Marco Soares, da CTA, sobre o eminente fim dos troleibus na cidade. De fato, Araraquara tem o meio de transporte do futuro há 40 anos! Limpo, silencioso e ecológico, os troleibus têm inúmeras vantagens sobre os ônibus a diesel. Infelizmente, nem todas essas características são evidentes à primeira vista e acabam por só serem percebidas demasiado tarde, a maioria das vezes quando a irreversibilidade do processo já é total.
Os argumentos apresentados são
os mesmos em todos os casos em que se pretende encerrar definitivamente com um e qualquer
processo (neste caso o transporte por troleibus): "são muito bons mas estão velhos
e têm uma manutenção muito cara". Ora a memória das pessoas é curta ou há
interesse(s) deliberado(s) em que as coisas aconteçam dessa forma. Senão, vejamos:
"são velhos" - estão sendo comparados com viaturas a diesel, cujo tempo de
operação é manifestamente inferior, ou seja, têm de ser renovada a frota muito mais
rapidamente (a vida dos ônibus é 2 a 3 vezes mais curta relativamente aos troleibus) -
está sendo esquecida a amortização do investimento, i.e., o custo inicial da viatura.
Se dura o dobro do tempo e se custasse o mesmo, sairia, grosso modo, por metade do preço.
Logo, "são velhos" é uma vantagem, não um inconveniente. Refira-se aqui que o
mais velho troleibus em funcionamento no mundo, um Pullmann norte-americano de 1947, ainda
no seu estado original, circula habitualmente pelas ruas de Valparaíso, no vizinho Chile
(veja-se na internet o site http://members.aol.com/tranviario/cl.html);
"têm uma manutenção muito cara" - das duas uma: ou os ônibus a diesel não
têm manutenção, ou ela não é contabilizada! De fato, estatística e comprovadamente
(em outros operadores desses meios de transporte), a manutenção dos troleibus é muito
menor do que a dos ônibus a diesel. A nível de freios, eles duram, em média, o dobro;
nas partes mecânicas, visto que existem em muito menor número nos tróleibus, o tempo
médio entre falhas (MTBF) é muito maior; e os equipamentos elétricos têm, também
estatisticamente, bastante menos falhas do que os motores de explosão interna (diesel, no
caso). Logo, é difícil aceitar que a manutenção, caso seja cara, o seja mais do que os
ônibus a diesel.
"Não existem peças de reposição" - este é outro dos argumentos utilizados. E talvez seja o único válido! Mas pensemos, por analogia, no telefone há 100 anos atrás e atualmente nas ligações à Internet: quanto mais pessoas tinham telefone e agora quanto mais computadores se ligam à Internet, mais úteis e interessantes se tornam essas redes, pois com cada vez mais gente cada um deles se pode contactar. Se se utilizasse a lógica usada para os troleibus, hoje não haveria telefones e, obvia e logicamente, nem se pensaria na Internet! A chamada "economia de escala" faz que os produtos, à medida que vão sendo mais procurados, se tornem unitariamente mais baratos. Inversamente, se ninguém os procura, vão ficando cada vez mais caros, até que desaparecem do mercado - como as peças de reposição dos troleibus. Logo o "não existem mais peças de reposição", embora verdade, é culpa da falta de opção pelo meio de transporte troleibus.
Convém, ainda, não esquecer, que o Brasil é o único país que conheço, em todo o Mundo, que tem tróleibus na linha normal de produção de duas fábricas (Marcopolo e Powertronics), além de várias outras empresas que os constroem sob encomenda!
Assim, e caso permitam a minha modesta opinião, essa decisão de abandono do meio de transporte elétrico deveria ser adiada sine die e procuradas formas de reduzir os alegados elevados custos de operação e manutenção, quiçá por uma diferente forma de gestão dos recursos existentes.
Convém também referir que em países ou locais onde a produção de energia elétrica é maioritariamente de fontes renováveis (hidroeletricidade), como por exemplo a Colúmbia Britânica, no Canadá, o uso do troleibus é intenso e representa uma redução nos gastos da região/país, além de contribuir significativamente para a redução do mal do final do nosso século - a poluição atmosférica! E, não esqueçamos, a maioria da produção de energia elétrica no Brasil provém da hidroeletricidade! Logo, os também às vezes alegados "altos custos no combustível (eletricidade)" são aberrantes e incompreensíveis! Além de que, visto serem com bastante precisão pré-determinados os consumos de energia ao longo do ano, eles poderiam ser "negociados" previamente com os fornecedores de eletricidade por forma a se obterem preços vantajosos.
Além do mais, a nível energético, os troleibus são incomparavelmente vantajosos: o seu rendimento varia entre 80 a 90% contra 15 a 30% dos ônibus a diesel. Obviamente mais econômicos e menos poluentes.
Por último, a questão
"usuário". É referido, também algumas vezes que "o usuário prefere os
ônibus a diesel porque são mais modernos". É estranho este comentário pois os
troleibus também podem ser modernos! (é certamente mais barato restaurar um troleibus
antigo do que comprar um ônibus novo); os troleibus são incomparavelmente menos
barulhentos que os ônibus a diesel. Ou, dito de outra forma, enquanto que aqueles são
praticamente silenciosos, estes são fantasticamente barulhentos! (Permitam-me um
parêntesis: os ônibus no nosso país são exageradamente barulhentos. Quem vive em
cidades como Rio ou S. Paulo e já teve a oportunidade de viajar nesse meio de transporte
noutros países, por exemplo, da Europa ou, mesmo, na África do Sul, sabe do que estou
falando.); pelo fato de não usarem combustíveis fósseis, não produzem fumos, o que
torna as viagens de troleibus mais agradáveis; os motores elétricos possuem o máximo da
sua força a baixas velocidades, o que significa uns arranques bem mais suaves do que os
ônibus a diesel além de, em cidades com subidas íngremes, os troleibus levarem larga
vantagem (mais força, menos esforço, menos barulho, menos fumo).
Posto isto, é difícil, para mim, aceitar o argumento de que "os usuários preferem
ônibus novos"!
Em São Francisco, Califórnia, linhas de ônibus a diesel que foram convertidas para
serviço por troleibus tiveram um aumento de 10 a 18% de usuários; em contrapartida, em
algumas linhas em que os troleibus foram substituídos temporariamente por ônibus a
diesel, o número de usuários diminuiu, nesse período, em 10%! Será o usuário
brasileiro diferente?
Por último, e pedindo desde já as minhas desculpas por este longo mail, gostaria de vos apresentar a Página na Internet sobre os Troleibus de Araraquara uma forma a dá-los a conhecer ao Mundo - cujo endereço eletrônico é http://members.tripod.com/~EmidioGarde/almo/aqm.html. Ela foi elaborada em parceria com o nova-iorquino Allen Morrison, grande apreciador e entendido em transportes elétricos no Brasil (e em toda a América Latina), tendo sido aí utilizada parte da sua informação fotográfica, da sua documentação e da sua recolha pessoal obtida em duas viagens à V/ cidade e a muitos anos de dedicação ao assunto.
(*) É leitor do Rio de Janeiro.
Araraquara, 04 de julho de 1.999
CTA repensa o fim do elétrico História cobra caro o fim dos trólebusAlguns poucos, travestidos de
modernismo que coloca a história no lixo, defendem o fim do transporte coletivo movido à
energia elétrica, apenas e tão somente, pelo ângulo econômico.
Esquecem-se, lamentavelmente, que existe um codimento semelhante ao que, hoje, faz
lamentar a destruição do notável e saudoso Theatro Municipal de Araraquara.
Câmara Municipal dá chance
para se repensar no fim do transporte coletivo alavancado pela energia elétrica. A
diretoria da CTA pode defender-se dizendo que se trata de empresa privada. O que ninguém
pode ignorar é que o dinheiro para a sua implantação e desenvolvimento veio dos cofres
públicos. Por isso, moralmente, a CTA deve pensar um pouco mais. Se não for possível
manter o sistema que se estude, pelo menos, a permanência de uma linha. É respeito pela
história. Essa, a síntese do pensamento de várias pessoas ouvidas pelo "JA".
Os tróleibus da cidade poderão circular escorados em lei de autoria do vereador Gildo Merlos que proíbe a desativação das linhas dos ônibus. Dentre as justificativas expostas no projeto de lei n§ 155, têm-se a utilização de recursos financeiros da população através de um adicional cobrado sobre os Impostos Predial e Territorial (Lei 632, de 1957), e de verbas dos Poderes Públicos.
Durante assembléia da Companhia Troleibus Araraquara, realizada no dia 30 de abril, os acionistas concordaram com o fim do sistema na cidade. O presidente Marco Soares anunciou, conforme relatório do técnico Antônio Aparecido de Oliveira, a inviabilidade da manutenção. Preocupado com um possível questionamento futuro sobre a decisão, o ex-presidente Miguel Tedde Neto solicitou o arquivamento da história do sistema.
A providência legislativa de Gildo possibilita a discussão da decisão da CTA.
O projeto de lei depende da
sanção do prefeito Waldemar De Santi. Se aprovado, somente com a autorização
legislativa poderá ser procedida a desativação dos ônibus elétricos. O prefeito pode
vetar e, no caso, o plenário votaria a decisão do Executivo. O prefeito De Santi que,
como vereador foi contra a decisão de Romulo Lupo em instalar o transporte coletivo, pode
silenciar. Caberá, nessa hipótese, a promulgação pelo presidente Gaeta.
Em maio, o presidente da CTA concedeu entrevista exclusiva ao JA, anunciando a desativação do sistema. O principal argumento foi o alto custo da manutenção. Na última semana, Soares preferiu não fazer declarações, afirmando que "trata-se de um projeto de lei que será estudado pelo prefeito".
Para Merlos , embora o custo de manutenção dos tróleibus seja superior ao dos ônibus a diesel, o tempo de utilização é no mínimo cinco vezes maior. "E não podemos deixar de lado a poluição oferecida pelo Diesel, enquanto que a energia elétrica não polui absolutamente nada", lembra.