Lourenço Marques


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O texto de seguida é baseado, na sua quase totalidade, na obra do Dr. Salomão Vieira «Os Eléctricos de Lourenço Marques», elaborada durante algumas de suas estadias em trabalho nessa cidade africana e em condições e épocas bem precárias e difíceis, e publicada por si numa edição datilografada e policopiada. Também foi publicada em partes insertas no Bastão Piloto, órgão oficial da APAC - Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro, e posteriormente (1997) publicada em livro.
Esta obra é uma verdadeira referência, não somente para os entusiastas pelo tema «elétricos», mas também para os estudiosos da história de Moçambique, em geral, e da sua capital, em particular.
Como lourençomarquino e apaixonado, não só pela minha cidade, mas também pelos elétricos, quero, aqui e com esta simples página, render a minha maior homenagem a tão abnegado e completo trabalho - e trabalhador!

Bem haja!

(1904.02.15-1936.11.24) Tramways Eléctricos de Lourenço Marques

Apesar de, em 1891, a Câmara Municipal aprovar a concessão de transportes urbanos por meio de vapor ou electricidade, podendo utilizar também a tracção animal, tal realidade não é concretizada e só em 1900 é que surgem ações no sentido de dotar Lourenço Marques de uma rede de transportes públicos movidos a eletricidade - à semelhança do que já existe no Porto e se instala em Lisboa, em Johannesburg, e noutras cidades evoluídas pelo mundo afora.

De facto, Lourenço Marques passa, nestes anos, por uma grande evolução - depois de ser elevada a vila em 1876, apenas se conserva nesse estatuto por 11 anos: em 10 de novembro de 1887 é elevada à condição de cidade e em 1898 passa a capital da Província de Moçambique. E em 1895 tem ligações ferroviárias regulares com a União Sul-Africana, aumentando o tráfego do seu já movimentado Porto, entretanto já um dos principais da África Austral. A cidade expande-se para norte e noroeste e apenas existem transportes privados e de características individuais: o rickshaw, por exemplo.

Depois de um processo algo sinuoso e muito pouco transparente, é apenas em 1903 que se realizam os trabalhos de assentamento de via (métrica), instalação da rede aérea (550V CC), construção da Estação Geradora de Energia Elétrica (875kW, a qual passa também a abastecer o Porto e os Caminhos de Ferro), etc., sob a égide da recém-criada, em Londres, The Delagoa Bay Development Corporation Limited. No final desse ano são feitas as primeiras experiências com os carros. Estes são fabricados também em Inglaterra, por G. F. Milnes e, à semelhança de outras encomendas feitas para redes de países com forte influência britânica, são construídos com dois andares, sendo o superior descoberto e destinados aos passageiros africanos e asiáticos. Porém, não há registos escritos desta configuração ter sido usada em Lourenço Marques.

A inauguração do sistema ocorre em 15 de fevereiro de 1904 - e o serviço regular de passageiros começa às 7h00 da manhã do dia seguinte. Neste dia são vendidos 7000 bilhetes nos 5 carros que circulam ininterruptamente durante todo o dia, até à meia-noite. «Apesar do enorme movimento na cidade baixa, principalmente à noite e de todos se quererem aproveitar dos carros onde à tarde se tornava difícil o ingresso, não houve o mais pequeno incidente, sendo para louvar o serviço do pessoal que o dirige.», escreve o jornal local O Futuro na sua edição de 20 de fevereiro.

Mas se o primeiro dia de funcionamento dos elétricos em Lourenço Marques é um êxito, o mesmo não se pode dizer dos que se seguiram: não há horários estabelecidos para as carreiras o que, aos evidentes incómodos da incerteza à espera da vinda de um carro - «Esperámos três quartos de hora pelo carro do Quartel. Oh! Os tramways... os tramados!», refere um jornal -, se somam os inconvenientes de a rede ser em via única, isto é, na mesma linha circularem carros elétricos nos dois sentidos. Apesar de haver cruzamentos colocados mais ou menos estrategicamente, demasiadas vezes há em que dois carros se encontram, frente a frente, tendo um deles de recuar centenas de metros até ao cruzamento mais próximo; uma das linhas, entre a Estação dos Caminhos de Ferro e a Câmara Municipal, no final da av. D. Carlos (posteriormente da República e atualmente 25 de Setembro), deixa de ter circulação aos domingos logo na primeira semana de funcionamento... e acaba por terminar muito pouco tempo depois, sendo os carris levantados pouco mais de um ano após terem sido colocados; outra carreira, entre a Capitania e a Praça de Touros, no Alto-Maé, tem o seu terminus recuado dois quarteirões... só passando a ser completado o trajeto depois de muitos protestos; e, por último, de forma subtil mas bem presente, a existência, nos utentes dos tramways, de uma boa dose de orgulho nacionalista e a sua consequente contrapartida xenófoba - não seja a companhia dos elétricos inglesa e ingleses os guarda-freios, os quais, inúmeras vezes, são acusados de trabalharem em evidente estado de embriaguês e, pasme-se,... em mangas de camisa !

Bilhete de uma zona Bilhete de duas zonas
Bilhete de três zonas - Clique para ampliar

Exemplares dos bilhetes usados nos
Tramways Eléctricos de Lourenço Marques

 

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Era meia-noite em ponto quando saí do Bar. Como posso ter tanta certeza? Acaba de passar por mim o eléctrico das 11 e meia....

Excerto de uma Crónica ironizando a pontualidade dos tramways...


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